REVISTA TAE - Falta intercâmbio em saneamento nas universidades
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Falta intercâmbio em saneamento nas universidades

Data:03/12/2014
Fonte: Revista TAE

por Cristiane Rubim

 

A crise da água vem mudando a forma de pensar das pessoas. Torna-se urgente a formação de profissionais especializados para a solução dos problemas ambientais com visão de sustentabilidade. Faltam incentivos para este setor. A automação, por exemplo, ainda é uma área que precisa ser explorada pelas universidades para melhorar ainda mais a eficiência das estações de tratamento de água (ETAs) e de esgoto (ETEs).
Falta também capacitação de mão de obra na operação dos sistemas, tanto para o manuseio do equipamento quanto para fazer o tratamento químico adequado. É um campo de atuação que precisa ser olhado pela demanda do mercado de trabalho e de jovens que buscam formação em alguma área. Para as empresas, treinar e moldar os profissionais exige altos investimentos devido ao despreparo dos profissionais que saem das faculdades. O mercado absorve, geralmente, profissionais de química, biologia e engenharias mecânica, elétrica ou civil.

Automação
A automação de ETAs e ETEs ainda não é um tema desenvolvido em projetos da área de saneamento em universidades, mas é abordado nas aulas. Mesmo assim,existem professores no setor desenvolvendo pesquisas (ver boxe). O que ocorre é que o assunto vem sendo mais explorado em projetos nas áreas de engenharia. O professor José Carlos Mierzwa, do departamento de engenharia hidráulica e sanitária da escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), diz que não há uma atuação específica sobre o assunto no departamento. “Somos apenas usuários dos sistemas de automação e controle. As engenharias elétrica e eletrônica estão mais associadas e fazem pesquisas porque desenvolvem sensores e elementos de controle. Nas aulas de pós-graduação, abordo apenas um pouco sobre automação em controle.”
No departamento de hidráulica e saneamento da escola de engenharia da USP São Carlos, a automação é abordada em disciplinas de projeto de graduação, mas sem desenvolvimento específico. “É ressaltada a importância da inclusão da automação com o objetivo de tornar os processos mais eficientes, de menor custo operacional e controlados a distância”, ressalta o professor Luiz Antonio Daniel, que ministra aulas no campus. Ele diz que, nas disciplinas de projeto de engenharia ambiental e sanitária, os alunos são incentivados a usar a tecnologia mais recente associada à automação nas ETAs e ETEs. “Entretanto, não são desenvolvidos projetos de automação por não constar na grade horária e pelo caráter da formação dos alunos”, explica.
No Senac Jabaquara, estas técnicas e tecnologias são apresentadas aos alunos e observadas nas visitas técnicas realizadas. “Mostramos aos alunos que, nas novas ou modernizadas ETAs e ETEs, a automação é aplicada para a dosagem de produtos químicos. Além de serem instalados medidores automáticos para leitura de vazão e de monitoramento dos parâmetros operacionais para o bom desempenho das estações”, Jorge Luiz Silva Rocco, coordenador de pós-graduação em gestão ambiental da unidade.

Enfoques
Nestas universidades, são feitas pesquisas sobre temas relativos a processos de tratamento de água, inclusive por membranas, acompanhando a tendência do mercado. Outra tendência são os temas ambientais com foco em sustentabilidade. Mas não sobre automação, assunto que fica a cargo das engenharias. “Não há pesquisa específica sobre automação no nosso departamento. Nas áreas de engenharia, existem disciplinas de graduação que abordam o tema, também objeto de pesquisa na pós-graduação, e eles se dedicam à pesquisa e desenvolvimento de processos de automação. Entretanto, essas pesquisas não estão diretamente ligadas à aplicação em ETAs e ETEs”, salienta o professor Daniel, da USP São Carlos. Já nas pesquisas que o departamento de hidráulica e saneamento realiza, a automação é usada apenas para controle de vazões, aplicação de produtos químicos, controle de temperatura e coleta de dados.
“Nossas pesquisas sobre ETAs e ETEs estão mais ligadas ao desenvolvimento de processos para tratamento de água e não ao desenvolvimento de equipamentos e ou softwares para automação”, afirma. Como estas: filtração, separação de partículas por sedimentação e flotação por ar dissolvido, remoção de microcontaminantes, tratamento ou condicionamento de lodo e de águas residuárias, tratamento anaeróbio e aeróbio, microbiologia do tratamento anaeróbio, reaproveitamento de resíduos do tratamento preliminar, produção de energia por biogás, hidrogênio e energia elétrica direta em células combustíveis microbianas, desenvolvimento de microssensores, remoção de parasitos e desinfecção.
“Ministro aula específica sobre tratamento de água com processos de separação por membranas. Já orientei diversas dissertações de mestrado com este tema voltado para abastecimento público, uso industrial e reúso. Atualmente, oriento três alunos de doutorado e um de mestrado neste assunto”, conta o prof. Mierzwa, da USP. Ele diz que há colaboração internacional da escola de engenharia e ciências aplicadas de Harvard, onde um aluno de doutorado faz parte do trabalho. “Além disso, desenvolvo pesquisa sobre membranas, com um laboratório específico para este fim, e outra para a aplicação destas membranas em sistemas MBR”, complementa. Recentemente, foi aprovado um projeto Sabesp/Fapesp, visando à utilização de separação por membranas no tratamento de águas subterrâneas para a remoção de metais.
De acordo com Rocco, do Senac Jabaquara, os cursos técnicos, de tecnólogos e de pós-graduação do Senac São Paulo exigem dos seus alunos apresentação de pesquisas e monografias sobre diversos temas ambientais, de forma prática, aplicando os princípios do desenvolvimento sustentável.



Pesquisas sobre automação em processos de ETAs e ETEs

Os professores Roque Passos Piveli e Sidney Seckler Ferreira Filho, do departamento de engenharia hidráulica e sanitária da escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), estão desenvolvendo pesquisas sobre automação em processos de tratamento de água e esgoto.
Automação em processos em ETEs:
• Para remoção de nutrientes e outras aplicações.
Automação em processos em ETAs:
• De carvão ativado para remoção de contaminantes emergentes;
• De separação por Membranas, Ultrafiltração e Nanofiltração.
“As pesquisas na área de tratamento de esgoto desenvolvidas em nosso departamento são voltadas à remoção de nutrientes de esgoto, especialmente nitrogênio e fósforo. Em relação à automação, o aspecto mais importante que buscamos é a racionalização dos sistemas de aeração com a instalação de sensores nos reatores biológicos que possam enviar sinais para o controle da abertura das válvulas do sistema de fornecimento de ar”, explica o prof. Piveli.
O objetivo, segundo ele, é o controle direto com sensores de concentração de oxigênio dissolvido diretamente e por meio de medidores de potencial de óxido-redução e medidores de concentração de amônia ou nitrato. “Nossa intenção é levá-los para os processos de tratamento de nitrificação e desnitrificação simultânea, de biomídia plástica móvel (Moving Bed Biofilme Reactor/Integrated Fixed-Film Activated Sludge - MBBR/IFAS) e de lodos ativados em batelada com reator compartimentado e cíclico.” Estas pesquisas são desenvolvidas em projetos ligados ao curso de pós-graduação em engenharia civil. O objetivo é capacitar profissionais desta área em projeto dessas novas modalidades de tratamento e para o controle operacional dos processos envolvidos. “O avanço no controle da aeração é importante por permitir a racionalização do fornecimento de ar e, consequentemente, do consumo de energia, apesar das variações das cargas orgânicas ao longo do tempo e das especificidades dos processos de nitrificação e desnitrificação do esgoto”, ressalta o prof. Piveli.


 


Pouco investimento
As universidades ainda não estão voltadas para a automação de ETAs e ETEs. Segundo o prof. Daniel, os investimentos nas universidades para o desenvolvimento de automação de ETAs e ETEs ainda é pequeno e acabam sendo direcionados mais para as engenharias elétrica, mecânica, produção, mecatrônica, computação, etc. “Há necessidade de intercâmbio com estas áreas da engenharia”, avalia.
A tendência para o futuro é a automação ser cada vez mais utilizada nos processos de tratamento de água e efluentes, principalmente, nas tecnologias mais modernas de tratamento. “Nas indústrias, a questão de automação e controle é bem relevante e tratada há muito tempo. Falta isso acontecer no setor de saneamento. Grandes projetos contam com profissionais que tratam do tema, mas não vejo isso ocorrendo no nosso departamento na atualidade”, analisa o prof. Mierzwa. No curso de engenharia ambiental e engenharia civil, conforme diz, são abordados temas sobre tratamento de água e efluentes, além dos atuais desafios e problemas da escassez de água.

Formação de especialistas e técnicos
Nos próximos anos, o mercado de trabalho no setor deve crescer devido às necessidades da vida moderna e da escassez de água. Por outro lado, falta mão de obra especializada para atuar e as próprias empresas estão fornecendo treinamentos aos seus profissionais. As universidades também encontram dificuldades em relação à capacitação de profissionais para ETAs e ETEs no Brasil, função repassada para as escolas técnicas. Outras de olho em acompanhar o que o mercado precisa lançam cursos visando à emergência de especializar profissionais para atuar no planejamento e gestão dos recursos hídricos.
Dentro desta tendência do mercado, o Centro Universitário Senac está lançando, na unidade Jabaquara, o curso de pós-graduação em gestão de recursos hídricos. “O objetivo do novo curso, que aborda um tema emergente e atual, é formar profissionais flexíveis e aptos a atuar de modo integrado e abrangente no planejamento e gestão dos recursos hídricos”, afirma Rocco.
Com duração de três semestres numa carga horária de 366 horas, será possível observar casos práticos para discussão e visitas técnicas. “O objetivo é especializar profissionais dos setores público, privado e terceiro setor para atuar em equipes multidisciplinares na gestão e no gerenciamento dos recursos hídricos e aspectos ambientais envolvidos”, destaca o coordenador de pós-graduação em gestão ambiental da unidade.
Nas aulas, os alunos deverão conhecer os instrumentos e ferramentas para aplicação na tomada de decisão e comunicação. Compreender ainda as competências e funções dos representantes dos setores públicos, dos usuários e do terceiro setor. “Levando em conta ainda a organização dos colegiados dos sistemas nacional e estadual de recursos hídricos e sua interface com a política municipal de uso e ocupação de solo”, salienta.
“Em geral, as universidades capacitam os profissionais das engenharias ambiental, sanitária e civil para projetar estações de tratamento de água e de esgoto, empregando as tecnologias consolidadas e as que foram desenvolvidas em atividades de pesquisa, porém, de aplicação ainda não consolidada, mas provadas serem eficientes, confiáveis e robustas”, aponta o prof. Daniel. Há deficiência em capacitação de profissionais para operação das ETAs e ETEs e também necessidade de cursos técnicos voltados para essa área. “É imprescindível a formação de técnicos capacitados a operar essas unidades com conhecimento dos processos e uso de tecnologia de ponta, incluindo a automação”, adverte. Isso porque, conforme diz, os engenheiros são formados para executar projetos e a instruir os técnicos como os sistemas devem ser operados. “Atualmente, as universidades não formam técnicos em saneamento e essa atividade deve ser repassada às escolas técnicas”, afirma.

 

Contatos:
Jorge Luiz Silva Rocco
: Senac Jabaquara
José Carlos Mierzwa, Roque Passos Piveli e Sidney Seckler Ferreira Filho: USP São Paulo
Luiz Antonio Daniel: USP São Carlos

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